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24/10/2013

História do Chá: Cha Ma Gu Dao (Antiga Rota do Chá e Cavalo) - Parte I

As rotas comerciais foram criadas para a troca de mercadorias entre lugares remotos há milhares de anos atrás. Junto com seu valor físico, os produtos levados também proporcionavam a troca cultural entre países, onde alguns valores perduram até hoje.

Praticamente no mesmo tempo do surgimento da famosa Rota da Seda (200 AC), existia a chamada Antiga Rota do Chá e Cavalo (Cha Ma Gu Dao, alguns também a chamam de Cha (chá) Ma (cavalo) Dao (rota) e em seus primórdios foi nomeada  Shu Shang - Du Dao, referindo-se ao começo da rota na cidade de Sichuan, Shu Shang, e o seu fim na India, Du Dao). Há indícios históricos que este caminho já era utilizado muito antes deste tempo, nos idos de 2700 AC como forma de migração e comunicação dos povos antigos da região. 

Ilustração que mostra a Rota do Chá. Fonte: houdeasianart.com

Sua História

Esta Rota em verdade tinha origem tanto na província de Sichuan quanto na, hoje, cidade de Yunnan. E a partir dessa região sudoeste da China, seu caminho de aproximadamente 2500 quilômetros (6 meses de jornada) atravessava mais de 70 montanhas (algumas com mais de 3000 metros de altitude!), mais de 50 rios e os dois maiores platôs da China (com clima variando do desértico à neve), chegando à India e sul do Himalaia. Eles trocavam com a China produtos como sal, açúcar, chá, animais, ouro, pedras preciosas, frutas secas, etc., e no desenvolver das eras, haviam também produtos refinados como porcelana, papel, tinta, tecidos, remédios, tabaco, ópio, esculturas em madeira, etc. Porém, durante um longo tempo, o objetivo principal da troca era a obtenção de cavalos provindos do Tibete. A China em constantes conflitos de poder necessitava de cavalos de guerra, que não existiam no país, e o Tibete sendo um grande consumidor do chá, buscava a planta em sua origem. Desta troca direta entre estas regiões (acentuada a partir da Dinastia Song - 900 DC), nasceu o nome Rota do Chá e Cavalo, fazendo referência às suas principais mercadorias. Há indícios que esta rota também se expandia para o sul, atingindo o Vietnã, Laos, etc.

Carregadores de chás na província de Sichuan, China, 1908, Foto: Ernest Henry Wilson

Ao contrário do que se imagina, a carga de chás era muitas vezes levada nas costas por carregadores, e o seu peso poderia chegar a 150 quilos com os objetos pessoais da pessoa como comida, pares de sandálias extras para a longa caminhada, etc. Eles utilizavam o auxílio de uma espécie de bengala para as partes mais íngremes pois de acordo com o depoimento de alguns carregadores, um escorregão era o suficiente para que você morresse. A história conta que como os caminhos eram muito sinuosos, os humanos tinham mais facilidade em levar a carga em alguns trechos. Mas também haviam algumas mulas, cavalos e iaques para auxiliar o transporte, sendo muitas vezes necessário suspender os animais (e os próprios humanos) na hora de atravessar os rios, o que dificultava mais a jornada. Isso sem mencionarmos que desde aquele tempo já existiam as adversidades humanas como os ladrões saqueadores de cargas ou sequestradores em busca de comerciantes importantes que se juntavam à caravana. Em uma jornada diária era possível andar 30 km com os animais, nos melhores dias.

Mapa mais detalhado da Rota. Fonte: english.cri.cn

Esta parte da história é muito importante para o desenvolvimento da China e alguns de seus povoados. Tanto em sua parte cultural como religiosa. Onde esta rota passou, diversas comunidades se formaram, construindo uma verdadeira torre de Babel, com vizinhos que falam línguas diferentes e possuem costumes diferentes mas moram tão próximos. A religião também teve grandes contribuições, tendo seus deuses desenvolvidos através da Rota, pois cada montanha em seu caminho é sagrada (também existem templos, mesquitas e até capelas construídas ao longo do percurso). Muitos monges viajaram por essas trilhas e nelas algumas ramificações de filosofias orientais se desenvolveram e até nasceram. Peter Goullart, escritor russo muito viajado e especialista em transcrever diferentes estilos de cultura, certa vez disse:

"Poucas pessoas compreenderam o quão vasto e sem precedentes fora esta expansão súbida do tráfico da caravana entre a India e a China, ou o quão importante ela se tornou. Foi um fenômeno único e espetacular. Nenhuma história completa ainda foi escrita sobre ela, mas ela viverá para sempre em minha memória como uma das grandes aventuras da humanidade. Mais que isso, ela demonstrou ao mundo de forma bem convincente que se toda a modernidade em comunicação e transporte forem destruídas por um cataclisma atômico, o humilde cavalo, amigo antigo do homem, estará sempre pronto para batalhar novamente nos caminhos entre os povoados distantes e as grandes nações."





* Este artigo é o fruto de um trabalho de pesquisa séria, que me toma bastante tempo e que faço com o maior prazer. Caso você queira reproduzí-lo na íntegra ou fazer alguma citação do seu conteúdo, por favor, entre em contato e nunca se esqueça de colocar os créditos para o meu site. 
Agradeço pela consideração.

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